04/05/2026
👉🏻 SALIVA ARTIFICIAL feita com proteína de cana-de-açúcar protege os dentes contra ácidos e cáries
Uma descoberta inovadora: uma proteína da cana-de-açúcar pode em breve proteger os dentes como a saliva natural — mesmo quando o corpo não o consegue.
* Os cientistas criaram uma saliva artificial utilizando uma proteína da cana-de-açúcar que pode proteger os dentes e combater as bactérias. O ingrediente principal, CANECPI-5, liga-se diretamente ao esmalte, formando um escudo contra os ácidos que causam cáries.
Os te**es iniciais mostram que funciona ainda melhor quando combinada com flúor e xilitol, reduzindo significativamente os danos nos dentes. A inovação pode ser especialmente transformadora para os doentes oncológicos que perdem a produção de saliva após o tratamento.
Investigadores da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) descobriram que o CANECPI-5 cria um "escudo" protector sobre os dentes. Esta camada ajuda a defender o esmalte dos ácidos presentes em bebidas como os sumos e o álcool, bem como dos ácidos do estômago. As conclusões foram publicadas no Journal of Dentistry.
Colaboração Internacional em Investigação e Desenho do Estudo
A pesquisa foi realizada durante o doutoramento de Natara Dias Gomes da Silva na FOB-USP. O projeto contou com a colaboração de cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no Brasil, da Universidade da Califórnia em São Francisco nos Estados Unidos e da Faculdade de Odontologia da Universidade Yonsei na Coreia do Sul.
O estudo insere-se no âmbito do Projeto Temático "Modulação da película adquirida para o controlo da perda mineral dentária: desvendando mecanismos para viabilizar terapias", coordenado pela Professora Marília Afonso Rabelo Buzalaf na FOB-USP.
"Testámos o elixir oral desenvolvido com CANECPI-5 aplicando esta solução em pequenos fragmentos de dentes de animais uma vez por dia, durante um minuto. Com base nestes resultados, iremos realizar pesquisas adicionais para que possamos pensar em aplicações para este produto", acrescenta Silva, primeira autora do artigo.
Como a saliva artificial fortalece o esmalte dentário
"Este é o primeiro produto que utiliza o conceito de película adquirida [uma fina camada protetora que se forma rapidamente na superfície do dente] para tratar a xerostomia, que é a sensação de boca seca provocada pela falta de saliva. Utilizamos substâncias que reformulam a composição das proteínas que se ligam aos dentes", explica Buzalaf.
"Desenvolvemos um processo em que o CANECPI-5 se liga diretamente ao esmalte dentário, ajudando a tornar os dentes mais resistentes à ação dos ácidos produzidos pelas bactérias", destaca Silva.
O estudo mostrou que o CANECPI-5 funciona melhor quando combinado com flúor e xilitol. Nos te**es, o spray de saliva artificial reduziu a atividade bacteriana e retardou a desmineralização dentária — o processo pelo qual os dentes perdem cálcio e fosfato, tornando-os mais vulneráveis às cáries.
Uma solução potencial para cáries graves após o tratamento do cancro
Este desenvolvimento é especialmente importante porque não existe atualmente um produto específico disponível para tratar as cáries graves que ocorrem frequentemente após a radioterapia para o cancro da cabeça e pescoço.
"A saliva artificial melhora a sensação de boca seca e aftas. Isto ajuda no desconforto e também combate as bactérias. Em alguns casos, a utilização deste tipo de produtos é apenas por um curto período. Noutros, é permanente, porque muitas pessoas perdem a capacidade de produzir saliva", acrescenta Buzalaf.
A proteína CANECPI-5 já foi patenteada. O próximo passo é expandir a produção através de parcerias com empresas interessadas em levar a tecnologia para o mercado.
"Já testámos a solução como elixir bucal, gel e filme orodispersível, que é um tipo de plástico que é colocado na língua e se dissolve, libertando a proteína. Testámos em vários veículos e verificámos que o CANECPI-5 funciona muito bem em todos eles. Vamos continuar a testar outras tecnologias dentro do Projeto Temático para utilizar não só esta proteína, mas também outras", afirma Buzalaf.
A Descoberta do CANECPI-5 a partir da Investigação com Cana-de-Açúcar
Segundo Flávio Henrique Silva, professor do Departamento de Genética e Evolução da UFSCar, que ajudou a desenvolver o CANECPI-5, o trabalho deriva de pesquisas anteriores sobre as cistatinas (uma família de proteínas envolvidas em vários processos biológicos) realizadas no âmbito do Projeto Genoma da Cana-de-Açúcar (SUCEST, FAPESP).
"Nessa altura, o nosso grupo identificou e produziu, de forma recombinante em bactérias, a primeira cistatina da cana-de-açúcar. Denominámos-lhe CANECPI-1. De seguida, identificámos e produzimos outras cinco cistatinas da cana, incluindo a CANECPI-5, que apresentou uma potente atividade inibitória contra as peptidases de cisteína, que são as suas enzimas alvo. Ao longo do nosso trabalho, notámos que esta proteína se ligava fortemente a superfícies lisas, como as cuvetes de quartzo utilizadas nas medições de atividade. Isto levou-nos a realizar te**es em parceria com a Professora Marília Buzalaf sobre a ligação da proteína ao esmalte dentário."
Os investigadores afirmam que a CANECPI-5 é especialmente promissora porque protege o esmalte e ajuda a regular as bactérias orais, tornando-a valiosa para futuros tratamentos dentários.
"O CANECPI-5 tem sido também utilizado no trabalho de outros colegas na área da medicina dentária, particularmente na periodontite. Temos também um projeto colaborativo com um colega da Universidade Federal de Uberlândia, utilizando implantes subcutâneos de esponja em ratos, que demonstrou a sua capacidade de reduzir a inflamação e promover a angiogénese [a formação de novos vasos sanguíneos] e a fibrinogénese [a formação de fibrina, uma proteína essencial para a coagulação sanguínea], processos importantes na reparação tecidular, tornando-o uma molécula candidata para utilização na cicatrização de feridas", destaca Silva.
Próximos passos para a saliva artificial e aplicações dentárias
Dentro do Projeto Temático, os investigadores continuarão a explorar como o CANECPI-5 interage com outros compostos.
Segundo Buzalaf, uma das direções é combinar o CANECPI-5 com um peptídeo derivado da estaterina, uma proteína que se encontra na saliva, para determinar se este híbrido poderia proteger melhor os dentes dos ácidos originários do estômago. Outro objetivo é investigar o seu potencial papel na prevenção da doença periodontal.
"Outro aspeto do Projeto Temático é associar o CANECPI-5 à vitamina E, uma vez que esta vitamina atua como um veículo, levando a proteína ao contacto com o dente. Imaginamos que isto possa facilitar a aplicação do produto diretamente pelo paciente em casa", afirma o investigador.