10/05/2026
Hoje, na volta da estrada, fiquei pensando que talvez as mães ensinem muito mais pelo que repetem silenciosamente do que pelos conselhos que dão.
No jeito de insistem presentes todos os dias; cuidando, sustentando a rotina e, no caso da minha mãe, lendo todos os dias.
Minha mãe era Professora e lá em casa os livros praticamente faziam parte da decoração ou seja, eu nem pensava em tocar.
Mas o que sempre me intrigava era ver os vizinhos aparecendo por lá para fazer pesquisa. Eu pensava: -pô, na casa deles não tem enciclopédia? (Os mais novos talvez precisem dar um Google para descobrir o que é isso.)
Por volta dos 12 anos, quando saí do quarto das meninas e fui dormir sozinho no escritório transformado em quarto, os meus aquários passaram a disputar espaço com os livros.
Livros que ainda não eram para mim. Eram densos demais, não tinham figuras. Os meus livros eram outros: coleção Vaga-Lume, “O Escaravelho do Diabo”, “A Ilha Perdida”. Histórias com desenhos no meio, onde a imaginação viajava. Ali a leitura fazia sentido.
Daí veio o desencontro…
Os livros da escola rapidamente f**aram complexos demais para um moleque que queria jogar bola na rua. “Senhora”, de José de Alencar, quase virou trave de futebol.
Lá pelos 16 ou 17 anos apareceu na minha cabeceira “Bufo & Spallanzani”, do Rubem Fonseca. Um romance policial que me fez duvidar se minha mãe tinha realmente lido aquilo. S**o não era assunto entre mãe e filho, mas estava ali, no livro, e de algum modo aquilo falava sobre uma conversa que nunca tivemos.
Mais tarde ela me apresentou o escritor e psicanalista Flávio Gikovate e o livro “Homem, o S**o Frágil”. Vieram outros; “Os Catadores de Conchas”, romance de arrancar lágrimas, “O Drible”, do Sérgio Rodrigues, com uma construção dolorosamente bonita da relação entre pai e filho, e “O Físico”, de Noah Gordon, leitura que todo profissional da saúde deveria ter.
De alguma forma, os livros, junto com, e apresentados por ela, também ajudaram a moldar parte da minha identidade.
Talvez seja por isso que, até hoje, eu não abra um livro sem pensar na minha primeira Professora.
Parabéns para minha mãe pelo dia de hoje.
Obrigado Mã por ter insistido. 🫶🥰