15/06/2015
"Quando o que cura passa a matar"
Pelo menos duas vezes na semana, a psicóloga Flávia Pereira sofre com intensas dores de cabeça. Como não sabe quando pode ser surpreendida, mantém em casa um "arsenal" contra o problema - uma caixinha com os mais variados tipos de analgésicos. No fundo da bolsa também tem uma cartela de seus "companheiros inseparáveis". "Eu tomo qualquer analgésico que vejo pela frente. Pode ser paracetamol, dipirona, Dorflex, contanto que a dor pare, ou melhor, nem comece", explica com bom humor.
A relação de Flávia com os analgésicos não é nada original. Nas farmácias, esse tipo de medicamento é campeão de vendas entre os que não necessitam de prescrição médica. A facilidade com que podem ser adquiridos estimula o "médico" que, segundo um dito popular, divide espaço com o "louco" existente em cada um. Assim, um "comprimidinho" sempre acaba sendo tomado por conta própria.
Demonizada pela sociedade, a automedicação é encarada de outra forma pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Saber o que fazer diante de problemas aparentemente simples pode desinflar os hospitais já saturados de pessoas. O problema é que a diferença entre "remédio" e "veneno" pode ser o mesmo princípio ativo em dosagens desproporcionais. De acordo com dados da Associação Brasileira de Indústrias Farmacêuticas (Abifarma), a automedicação malrealizada é responsável, no Brasil, pela morte de cerca de 20 mil pessoas por ano.
Um dos analgésicos preferidos de Flávia é o Tylenol dc, "porque a dosagem é dupla". Em cada cápsula do medicamento há 500 mg de paracetamol - um dos compostos antipiréticos (contra febre) e analgésicos mais vendidos e populares do mundo. Desprovido da potencialidade da dipirona e do ácido acetilsalicílico de minar a dor, é muito comum o indivíduo aumentar a dosagem sem saber as consequências e os riscos implicados nessa prática.
O paracetamol pode levar a um quadro irreversível de lesão hepática. O alerta é do professor do Departamento de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Gustavo Batista Menezes. Em parceria com os alunos Pedro Elias Marques e André Gustavo Oliveira, o docente acaba de publicar o artigo na revista brasileira Ciência Hoje. O trabalho coloca em discussão a utilização do paracetamol no cotidiano. De acordo com o pesquisador, doses acima de 4 g diárias são suficientes para lesar o fígado de forma definitiva.
"Se o paciente toma mais que o preconizado (dosagem que varia de pessoa para pessoa), o excesso vai reduzir as vias de metabolismo no fígado e começar a acumular um subproduto que a gente chama de metabólito, que é o resto de um processo de ‘digestão' do medicamento. Esse excedente se acumula dentro das células, matando-as. A partir daí, elas não conseguem lidar com o agente tóxico, e a função do fígado para", explica o professor.
O fígado cumpre um papel vital no organismo humano. "É como se fosse um laboratório. O fígado é responsável por transformar hidratos de carbono, proteínas, gorduras, vitaminas, sais minerais e outras substâncias que ingerimos. Quanto aos medicamentos, grande parte deles sofre sua primeira transformação no fígado, onde podem ocorrer reações nocivas ao órgão", explica o diretor do Departamento de Gastroenterologia e Nutrição da Associação Médica de Minas Gerais, José Mauro Messias Franco. Segundo o médico, os rins também podem ser lesados em processos de intoxicação.
A partir do momento em que sofre sucessivas lesões, não sendo possível a regeneração do fígado, o paciente tem apenas o transplante como recurso para manter-se vivo, o que, em alguns casos, também pode ser inviável. "Dependendo do caso, metabólitos que deveriam ser excretados pelo fígado começam a se acumular no cérebro. Aí o paciente entra em coma. Pode ser que, mesmo com um órgão disponível para transplante, o paciente morra por não ter mais competência neurológica para viver", elucida o professor.
Diante dos riscos, o que se questiona é a fiscalização da venda de medicamentos tidos como "inofensivos" aqui, mas vistos como um veneno letal em países como Estados Unidos e Grã-Bretanha. Por lá, grande parte dos suicídios se dão por overdose de medicamentos que levam o paracetamol na composição.
O vice-presidente da Federação Nacional dos Farmacêuticos, Rilke Novato Públio, não defende o enrijecimento da fiscalização nem a restrição da venda dos analgésicos, mas é pelo bom-senso na manipulação desses medicamentos. "Os analgésicos e antipiréticos são classificados em nosso país como isentos de prescrição, mas, em absoluto, não são isentos de provocarem riscos à saúde das pessoas".
A leitura da bula, uma ação simples, e muitas vezes ignorada, pode reduzir as chances de lesão hepática por medicamentos. Nela estão contidas informações sobre reações adversas, consequências do uso sistemático e em caso de superdosagem. O Tylenol dc de que Flávia faz uso, por exemplo, alerta para os riscos de intoxicação do fígado.
DENGUE
Desde os primeiros surtos de dengue no Brasil, o Ministério da Saúde adotou o paracetamol como medicamento padrão para o tratamento. Ele foi o escolhido, porque, ao contrário do ácido acetilsalicílico (presente na Aspirina e no ASS, por exemplo), não eleva o risco de hemorragias internas. Após as constatações do dano causado por superdosagem de paracetamol, começou-se a discutir sobre a utilização do fármaco em casos de pacientes com dengue. Não existiriam antipiréticos mais eficientes e que não representassem risco ao fígado?
De acordo com Novato, há no Brasil uma "supervalorização da febre", e o ideal seria reverter as altas temperaturas e dores suportáveis sem a utilização de medicamentos. "O resfriamento corporal, por exemplo, possui estudos comprobatórios de eficácia", detalha.
Quando se faz necessária, a prescrição médica do paracetamol é muito segura. O limite recomendado por dia é, na maioria das vezes, inferior à metade do máximo que o fígado consegue metabolizar. "O paracetamol não pode ser administrado mais que quatro vezes durante 24 horas, e a dose deve ser respeitada de acordo com a idade: em crianças abaixo de 1 ano, dose de 60 mg; de 1 a 4 anos, dose de 60 mg a 120 mg, e acima de 5 anos, dose de 240 mg", detalha.
MISTURAS LETAIS
Mas o "seguro" também é relativo. Os especialistas alertam para o fato de que existem muitos medicamentos que, de forma associada, possuem o paracetamol na composição. As misturas de comprimidos podem sobrecarregar o fígado, aumentando a probabilidade de lesão.
"Pode ser que essa somatória, especialmente se for feita em excesso, leve o paciente para um quadro de lesão hepática aguda. Às vezes, o paciente sabe que tem uma lesão no fígado e, diante de uma gripe, por exemplo, recorre a um antigripal. A maioria dos antigripais tem paracetamol. Se ele fosse ao médico, o profissional saberia que o paciente não poderia tomar aquela dose. Mas o indivíduo não vai. Ele adiciona um medicamento que, em teoria, é inócuo, mas no contexto do paciente se torna crítico", conta Menezes.
Todo cuidado é pouco também no caso de pacientes que ingerem álcool diariamente. Com o fígado já fragilizado, os medicamentos podem ser um agente a mais de sobrecarga do órgão. "Pacientes com quadro clínico de lesão no fígado, hepatites ou uso abusivo de álcool devem ter atenção redobrada em relação à utilização de medicamentos à base de paracetamol. Muitas vezes, a toxidade é silenciosa. A pessoa nem mesmo manifesta a icterícia - o sinal mais marcante de doença do fígado. Só depois de um tempo em que as lesões já estão adiantadas, levando à cirrose, é que o alarme é dado", explica o doutor José Mauro Messias Franco.
O alerta não diz respeito apenas ao paracetamol, mas aos medicamentos em geral, conforme pondera Menezes. O olhar da equipe de pesquisadores se centrou no paracetamol pelo fato de as pessoas estarem mais suscetíveis a gripes e resfriados no inverno, levando-as a procurar o alívio em fármacos como antigripais. Franco concorda com o pesquisador e lembra que até mesmo "medicamentos à base de ervas, chás medicinais e fitoterápicos representam risco de toxicidade, se ingeridos em exagero", alerta.
ESPERANÇA
O artigo publicado pelos pesquisadores da UFMG ganhou amplo destaque na imprensa brasileira. Mas não é a primeira vez que um trabalho da equipe chama a atenção. Em 2010, Menezes chefiou uma pesquisa cujos resultados trouxeram novas perspectivas para o tratamento de pacientes com lesões hepáticas. O trabalho foi publicado em uma das maiores revistas de ciência do mundo: a americana Science.
A equipe simulou uma sobredose de medicamentos em cobaias para entender como os fármacos agem lesando o fígado e como se dá a resposta do organismo. Os pesquisadores descobriram que ao invés de reparar o dano, o sistema imunológico pode agravar a situação.
"Quando uma célula morre, ela libera diversas substâncias, inclusive mitocôndrias - organelas responsáveis por fornecer energia à célula. O DNA da mitocôndria, que é próprio dela, se parece muito com o DNA de uma bactéria, assim como a própria estrutura. Quando essas mitocôndrias são liberadas numa morte celular, o organismo pode as reconhecer de maneira errada, como se fossem bactérias. E aí a mensagem é ‘atacar!'", detalha.
Posteriormente, as comprovações se deram por meio de pacientes com lesões no fígado. Segundo o professor, o sangue dos indivíduos com o órgão lesionado tem cerca de 400 mil vezes mais produtos mitocondriais do que o de pessoas sadias.
"Nós mostramos que os pacientes com lesão hepática podem estar sofrendo um processo de resposta inflamatória exacerbada e não positiva para o indivíduo. Modular isso, ou seja, fazer o sistema imunológico identificar o produto mitocondrial como não bactericida, pode ser um adjuvante novo para tratar os pacientes com lesões hepáticas", arremata o professor.
Tai gente sempre falei e agora da mais que comprovado!
Cuidado ao se AUTO medicar..
Com carinho Dra Rachel