12/11/2024
Esses dias atrás uma paciente do consultório comentou comigo sobre a falta de humanidade dos atendimentos na área da saúde. Ela precisou de alguns exames e sentiu a triste realidade do distanciamento entre profissionais e pacientes. Compartilhou comigo esse texto escrito por ela mesma. Um texto sensível que nos chama à reflexão.
IH e IA
Na era virtual , da hiperconectividade , dos relacionamentos artificiais e da Inteligência Artificial , IA, com paradoxais e discutíveis benesses , meu pensamento volta- se para a Inteligência Humana, IH.
Necessitei, recentemente , de submeter- me a um exame odontológico em que , em cada ouvido , foram introduzidos aparelhos afunilados que produziram sons estridentes em minha mente enquanto a atendente dizia a mim : abra mais a boca , fecha o sorriso, abra um sorriso ….
Confesso que me senti comandada pela máquina ;submissa a ela e azoada pelo ruído.
O conhecimento visual e formativo
do profissional da saúde não é mais suficiente ou foi substituído por um equipamento automatizado.
O atendimento humanizado do médico, estive antes em um otorrino; que antes até curava ; é rápido e o
encaminhamento aos exames automatizados é indispensável.
Sou grata aos benefícios da tecnologia , porém ,o acolhimento dos profissionais da saúde na relação com o paciente, para mim , continua sendo fundamental.
Pode curar dores de cabeça , estômago e até do coração quando o paciente pode expressar as emoções que podem estar causando tais males .
Doenças difíceis de serem dectadas até pelos equipamentos mais sofisticados .
Será que também já nos tornamos máquinas onde basta a troca de alguns parafusos, desalinhamentos e balanceamentos automáticos ?
A relação médico - paciente não é mais necessária ; tornou- se obsoleta ou anacrônica ?
Recordo-me da história de Marostica .
Marostica é uma cidade veneziana do século XIV, cercada por muralhas medievais e que possui dois castelos.
É uma cidade que sempre desperta muita curiosidade e fascínio nos turistas que decidem visitar o Vêneto. Um dos eventos mais famosos e importantes que acontecem nesta cidade é o jogo de xadrez com personagens vivos.
Este evento, famoso em toda a Europa, atrai sempre muitos turistas e curiosos que querem assistir a este jogo com peões vivos. A história deste jogo tem origem numa disputa amorosa em 1454.
Dois nobres se apaixonaram pela bela filha do governador veneziano e para pedir a mão da moça decidiram desafiar um ao outro para um duelo. O pai da menina evitou o confronto e obrigou os pretendentes a jogar xadrez na praça com peões vivos.
O vencedor recebeu de presente a mão da filha, enquanto o perdedor se casou com a segunda filha do governador.
Penso nas crianças se afogando nos jogos virtuais que exigem muita habilidade motora e pouca ou nenhuma competência cognitiva.
Retorno ao jogo de xadrez; pouco popular e até elitizado em nossa cultura.
Estratégias mentais sofisticadas é condição essencial para se vencer o adversário ; mas não apenas isso . Outras artimanhas são fundamentais , como conhecer a personalidade do adversário , analisar seu comportamento emocional entre outras expressões individuais.
Entendo quase nada sobre o jogo de xadrez ; não é obrigatório para a compreensão do desenvolvimento cognitivo que os jogadores têm de alcançar para competir com a dignidade de um atleta mental; xadrezista.
Embora possam treinar jogadas com a IA, até o momento , os torneios válidos acontecem entre humanos ; inteligências humanas que são desafiadas e superadas a cada partida .
Concluo que não devemos subestimar modalidades esportivas que estimulam Inteligências humanas, IH, particularmente nas escolas onde a IA vem roubando espaços de aprendizagem humana.
Foto: Jardim da Biblioteca Sinhá Junqueira .
Ribeirão Preto /SP
Maria Z👁