06/02/2026
O artigo de Manfredini et al. (2017) traz algumas razões pelas quais o antigo paradigma mecanicista (gnatológico) não se sustenta mais:
1. Ausência de Consistência Estatística
Avaliaram quase 40 características oclusais diferentes (como mordida aberta, sobremordida, ausência de dentes, contatos prematuros, etc.).
Em mais de 90% das características avaliadas, não houve nenhuma associação clinicamente relevante.
Se a oclusão fosse a causa, deveria haver um padrão claro (ex: quem tem mordida cruzada sempre tem mais dor), o que a ciência não encontrou.
2. O Conceito de Causalidade Reversa
Nos raros casos onde existe uma associação entre um problema de mordida e a DTM, a relação pode estar invertida: A DTM (inflamação na articulação ou espasmo muscular) altera a posição da mandíbula, o que faz com que os dentes deixem de se encaixar corretamente. Ou seja, *a maloclusão é o sintoma, não a doença.*
3. Falha das Análises Multivariadas
Muitos estudos antigos mostravam correlação porque faziam análises simples (apenas dente vs. dor), e que, quando se adicionam outros fatores no cálculo (como estresse, depressão, genética e hábitos parafuncionais), a influência da oclusão desaparece ou se torna insignificante.
4. Crítica à Qualidade das Evidências Antigas
O artigo expõe que os estudos que sustentavam a era gnatológica (ajuste de mordida) eram, em sua maioria, de baixa qualidade metodológica, baseados em observações clínicas isoladas ou sem grupos de controle adequados. Ao filtrar apenas estudos com rigor científico, a "culpa" da mordida não sobrevive ao escrutínio.
**A conclusão lógica do artigo é: se não há prova de que a oclusão causa a DTM, é antiético realizar tratamentos irreversíveis (como desgastar dentes, fazer reabilitações protéticas caras ou ortodontia complexa) com a promessa exclusiva de curar a dor. A oclusão deve ser tratada por questões estéticas, funcionais ou protéticas, mas *nunca como uma terapia para dor orofacial*. Os dentistas devem abandonar o velho paradigma e focar em terapias conservadoras que respeitem a natureza multifatorial da dor.**