17/06/2026
Responder a críticas com achismo seria fácil. Prefiro responder com os estudos.
O vídeo que gerou esse comentário explicava três mecanismos de ação do ultrassom que a cureta, por definição física, não reproduz: cavitação, microfluxo acústico e irrigação contínua da bolsa.
Cada um desses pontos tem respaldo publicado em periódicos de alto impacto.
A cavitação gerada por pontas ultrassônicas foi filmada em câmera de alta velocidade por Vyas et al. (Journal of Clinical Periodontology, 2020): microbolhas formadas e colapsando a 2 mm de distância do biofilme, removendo-o de superfícies de titânio sem contato mecânico.
O microfluxo acústico foi estudado por Khambay e Walmsley (Journal of Periodontology, 1999), que documentaram correntes turbulentas ao redor da ponta ultrassônica com forças de cisalhamento hidrodinâmico capazes de desorganizar biofilme além do ponto de contato direto.
A cureta funciona. Isso nunca foi questionado. O que foi dito, e permanece tecnicamente correto, é que ela opera por um único mecanismo: contato mecânico na interface dente-cálculo. O ultrassom opera por quatro mecanismos simultâneos. São instrumentos com biofísica distinta.
Tratá-los como equivalentes em mecanismo é ignorar a literatura.
Mas o ponto mais importante do vídeo de hoje vai além do instrumento.
O Brasil tem uma das maiores concentrações de cirurgiões-dentistas do mundo. E ainda figura entre os países com prevalência elevada de edentulismo, especialmente em adultos acima de 40 anos, faixa em que a doença periodontal se torna a principal causa de perda dentária, conforme dados publicados em levantamentos nacionais e revisados por pares.
Não é que falte dentista. É que, em parte, falta conduta clínica baseada em mecanismo, não em hábito.
Desconhecer um conceito não o invalida. Resistir à atualização tem um preço, e esse preço aparece na boca de quem atendemos.
A pergunta que f**a, e que eu deixo aberta, sem resposta definitiva, é se a forma como praticamos a odontologia contribui para esses números. É uma reflexão que merece ser feita com honestidade, sem defensividade.
Ciência não é autoridade. É