20/08/2025
"Na Ponta da Massambaba, o armazém de sal os esperava. Um dia de travessia, talvez dois, caso o vento parasse. Nesse armazém, o ouro branco se acumulava até que outras lanchas de sal o levassem para Cabo Frio, onde seria feita a pesagem no Canal do Itajuru. De lá, seguiria para outros lugares, para terras que Zé nunca pisaria. O sal se espalharia pelo mundo. Ele até gostava do armazém, pois geralmente encontrava algum barco com mantimentos para venda. Apanhava no fiado e imaginava a felicidade de sua família quando retornasse com algo diferente para comer, ainda que pouco. Depois, o patrão cobriria as despesas. Contudo, o difícil era encerrar essa dívida. E, lá estando, apesar de tantas dificuldades e do corpo exausto, não perdia a oportunidade de caminhar até a Capela de Santo Antônio para pedir a bênção ao padre, confessar-se e agradecer a Deus.
E, enquanto a batera cortava silenciosa as águas em direção ao armazém, Zé permitia-se sonhar, embora seus pensamentos fossem como o vento, incertos e breves. Imaginava os filhos seguindo outros caminhos, andando — calçados? — por trilhas distantes do ouro branco. Quem sabe, longe dali, estudando, eles pudessem desvendar o que ele jamais entendera. Talvez conhecessem o valor real do sal — esse carregado pelo salineiro sem saber o preço —, e desejava a transformação desse esforço no alicerce de dias melhores. Sonhava, assim, com olhos para além do horizonte da Massambaba, com vidas que não precisassem clamar por um amanhã que teimava em não chegar."
Excerto de "A Batera: viagem do sal", um dos contos do livro "Palavras de Sal: contos e cosmopoéticas da Restinga de Massambaba".
Foto: Capela de Santo Antônio, localizada na Salina Pereira Bastos, na Ponta de Massambaba.