26/08/2020
Alterações da mucosa oral em pacientes infectados por SARS-COV-2.
Poucos estudos apresentaram, até o momento, características clínicas de manifestações orais associadas à COVID-19. Neste contexto, evidências científicas sugerem que a enzima conversora da angiotensina 2 (ACE2), notoriamente reconhecida como receptor celular mais importante para os mecanismos patogênicos do SARS-CoV-2, é também expresso em células epiteliais da língua e das glândulas salivares. Este fato embasa a hipótese de que a disgeusia e as alterações orais recentemente descritas em pacientes com COVID-19 talvez sejam causadas pelo potencial do SARS-COV-2 em utilizar a mucosa oral como rota de infecção por meio dos queratinócitos e fibroblastos (Mariz et al., 2020).
Imbuídos da relevância clínica desta hipótese, um grupo de pesquisadores do Dept. de Medicina Oral do Hospital Sírio-Libanês; do Dept. de Infectologia do Hospital Sírio-Libanês; do Serviço de Odontologia Oncológica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP-FMUSP); do Serviço de Estomatologia do Dept. de Clínica e Odontologia Preventiva da Universidade Federal de Pernambuco; do Dept. de Diagnóstico Oral da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas (FOP-UNICAMP) e do College of Dentistry, University of Florida, Gainesville, Florida, USA, se associou para publicar a primeira série de casos de pacientes brasileiros indexada à base de dados MEDLINE -que é gerenciada pela Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos- com lesões ulceradas orais associadas à COVID-19. A experiência da equipe será publicada no periódico da Academia Norte-americana de Medicina Oral e Patologia Oral e está disponível para consulta na plataforma ScienceDirect (Brandão et al., 2020).
Link para acesso ao artigo: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212440320311196
A série original de casos em questão descreve pacientes que desenvolveram diferentes espectros clínicos de lesões orais ulceradas (Figura 1), precocemente em relação ao curso clínico da COVID-19, e que afetaram áreas da mucosa oral reconhecidas por expressar receptores ACE2 (língua, lábios, palato e orofaringe).
Interessantemente, na maioria dos pacientes, o desenvolvimento das lesões orais foi precedido por disgeusia. O grupo de pesquisadores sugeriu novos mecanismos etiopatogênicos entre receptores ACE2 e o SARS-CoV-2, contudo, reconhece a importância de novos estudos que possam confirmar se estas lesões ulceradas da mucosa oral são causadas primariamente pelo SARS-CoV-2 ou se representam eventos clínicos coincidentes de reativações ou co-infecção viral associada à progressão da COVID-19. Finalmente, os autores destacaram a relevância destas observações clínicas que podem preceder os sintomas respiratórios agudos da COVID-19 em vários dias e chamaram atenção, ainda, para o fato de que cirurgiões-dentistas são profissionais da linha de frente de assistência em saúde nesta pandemia e, portanto, precisam examinar sistematicamente toda mucosa oral dos pacientes e estar atentos para os sintomas e lesões orais que podem representar manifestações iniciais da COVID-19, demandando isolamento e encaminhamento para Serviços médicos de referência neste contexto.
Referências bibliográficas:
1. Mariz BALA, Brandão TB, Ribeiro ACP, Lopes MA, Santos-Silva AR. New Insights for the Pathogenesis of COVID-19-Related Dysgeusia. J Dent Res. 2020; 99 (10): 1206. doi:10.1177/0022034520936638
2. Brandão TB, Gueiros LA, Melo TS, Prado-Ribeiro AC, Nesrallah AC, Prado GV, Santos-Silva AR, Migliorati CA. Oral lesions in SARS-COV-2 infected patients: could the oral cavity be a target organ?
Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology, 2020. In Press, Journal Pre-proof. doi: 10.1016/j.oooo.2020.07.014.